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A Idéia de Cultura Brasileira

23.6.07

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Poesia, minha tia

Oswald de Andrade [1890-1954]
Escapulário
No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia


Wally Salomão [1943-2003]
Novelha cozinha poética
Pegue uma fatia de Theodor Adorno
Adicione uma posta de Paul Celan
Limpe antes os laivos de forno crematório
Até torná-la magra-enigmática
Cozinhe em banho-maria
Fogo bem baixo
E depois leve ao Departamento de Letras
Para o douto Professor dourar.


Paulo Leminski [1944-1989]
o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase
por onde ele passa
nascem palavras
e frases
com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve
o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve


Torquato Neto [1944-1972]
Marginália II - Torquato & Gil
Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição
Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti
Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte
Olelê, lalá
A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
Até pra dar e vender
Olelê, lalá
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo


José Carlos Capinam [1941]
Poema intencional
Há em cada substância a sua negativa
e a possibilidade de processo.
Processo inexorável a ir ao fim
meta a ser de pão e flores:
A rosa será uma outra rosa
e nós já não seremos
vejo nos olhos tristes
um filho possível
vejo na árvore antiga do parque, uma cadeira,
uma muleta, mas sobretudo um aríete
descubro na boca angustiada
o hino pronto e pesado:
é inevitável o acontecimento
mas procuro ser um elemento,
Carrego em mim a utilidade
sei que posso dar existência
e na minha total renúncia
utilizo-me para um bem maior:
tenho que colher a rosa e transformá-la
tenho que possuir Maria e dar-lhe um filho
tenho que transformar a árvore do parque
em cadeira, em muleta mas, sobretudo em aríete.

Mario de Andrade [1893-1945]
Eu sou trezentos
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso.
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra com quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
E sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.











José Paulo Paes [1926-1998]
O segundo império
Sejamos filosóficos, frugais,
Eruditos, ordeiros, recatados
Um casebre, se digno, vale mais
Que palácio de alfaias atestado.
Sejamos sobretudo liberais
E, ao figurino inglês afeiçoados,
Tolerantes, medíocres, legais,
Por jeito d'alma e por razões de Estado.
Sejamos, na cozinha, escravocratas,
Mas abolicionistas de salão:
A dubiedade é-nos virtude grata.
Com ela se garante bom quinhão
Dessa imortalidade compulsória
Que é justiça de Deus na voz da História.










Manuel Bandeira [1886-1968]
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público
com livro de ponto
xpediente protocolo
e manifestações de apreço
ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára
e vai averiguar no
dicionário o cunho vernáculo de
um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo
os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo
as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo
os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula
ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade
tabela de cosenos
secretário do
amante exemplar
com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras
de agradar às mulheres, etc.
Quem antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente
dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
Não quero mais saber
do lirismo que não é libertação.















 

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